Drº Leonardo Coimbra

16-03-1912 00:00

 

Biografia

Leonardo Coimbra nasceu em Borba de Godim, actual cidade da Lixa, concelho de

Felgueiras, a 30 de Dezembro de 1883, e faleceu no Porto, a 2 de Janeiro de 1936.

Baptizado com o nome de Leonardo José, o segundo dos oito filhos de António

Inácio Coimbra, médico, prematuramente falecido em 1901, contava Leonardo 18 anos, e de D. Bernardina Teixeira Leite Coimbra, concluiu os estudos primários em 1892 e fez os estudos secundários (1892-98), em regime de internato, no colégio de Nossa Senhora do Carmo, em Penafiel, instituição de disciplina rígida e as sustedoras, de cuja pedagogia guardaria na memória as horas dramáticas. O casarão, que se erguia em promontório rodeado de naturezas luxuriantes e frescos regatos, foi um presídio. Nessa condição o evoca numa página singular de A Alegria, a Dor e a Graça, igualmente para mostrar que as paredes, que lhe tolheram a liberdade e os anseios de brincadeira, o tornaram sonhador: «Sim, foi no colégio que aprendi a cismar.» (Coimbra, 1916: p. 91) Entre as austeridades do estudo e a vida da imaginação, deu Leonardo as primeiras provas dos seus talentos e inteligência, com excelentes resultados nas matérias científicas e humanísticas, completando o ciclo liceal aos 14 anos.

Feitos os exames finais dos preparatórios em Julho de 1898, no Liceu Central do Porto, no mês de Setembro do mesmo ano ingressava prematuramente na Universidade de Coimbra, mercê de portaria especial que o autorizou a frequentar os estudos superiores és. Matriculou-se em ciências físicas e matemáticas. A vida de estudante coimbrão, entre 1898 a 1903, não primou pelos estudos. Apesar das constantes chamadas de atenção de José António, o irmão mais velho, que ali frequentava o curso de Direito, Leonardo dedicou-se ao essencial das sebentas universitárias, o que lhe permitiu concluir apenas as disciplinas de Física, Matemática e Desenho e frequentar, na Faculdade de Direito, como voluntário, Economia Política e Direito Económico. Outros interesses o atraíram: o convívio dos condiscípulos, a deambulação por Coimbra e arredores e o gosto pela educação física. Frequentador habitual do Ginásio da Estrada da Beira, revelou-se, neste tempo, um excelente ginasta, atraindo-o as modalidades de natação, remo, esgrima, luta greco-romana e pesos e halteres. Nesta última modalidade se inscreveu como atleta amador pelo Ginásio Académico  de Coimbra, em 1903, numa competição promovida, em Coimbra, pelo Real Ginásio de Lisboa,  mas,  por qualquer razão, não chegou a prestar as provas.

Cinco anos  após  o  ingresso  na  Universidade  coimbrã,  decidiu-se  pela  carreira  de oficial da Marinha e entrou na Escola Naval. Aí teve como instrutor de remo António Sérgio  (n.  1883  -  f.  1969),  mais  tarde  seu  adversário  intelectual  e  político,  e conheceu J. Mendes Cabeçadas (n.  1883  œ  f.  1965),  seu  condiscípulo,  futuro almirante, que esteve na origem do movimento de 28 de Maio de 1926, com quem manteria relações de amizade e a quem dedicaria o seu primeiro texto conhecido, o conto intitulado «A doida»  (1905). Em 1904, promovido a aspirante, fez no navio- escola  o  seu  primeiro  cruzeiro  pelo  Atlântico,  viagem  onde  padeceu  enjoos sucessivos.  É  possível  que  esta  experiência  o  tivesse  levado  a  reavaliar  a  sua carreira  como  marinheiro,  mas  não  é  provável  que  tivesse  sido  a  causa  do  seu abandono em 1905. O jovem aspirante deixou a Escola Naval na sequência de um protesto veemente contra a admissão sem concurso do infante D. Manuel.

O ciclo da sua vida entre 1905  e  1909 é  cheio  de  promessas  e  acontecimentos: ingressou, no ano lectivo de 1905-06, na Academia Politécnica do Porto, precursora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, para frequentar as cadeiras preparatórias  do  Curso  de  Habilitação ao Magistério  Secundário, concluindo-as  no ano  de  1908-09;  em  plena  ditadura  franquista,  participou  nas  manifestações estudantis  da  Politécnica  contra  João  Franco,  que  no  ano  lectivo  de  1907-08  se deslocara ao Porto e estivera naquela instituição; em 11 de Julho de 1907, contraiu matrimónio  civil  com  Maria  Amélia,  da  família  do  poeta  António  Nobre  e  sua companheira de infância, nascendo o primeiro filho do casal a 25 de Maio de 1908; a  par das  suas  relações  de  amizade,  duradouras no  tempo,  com Jaime Cortesão, Augusto  Martins,  Augusto  Casimiro,  Teixeira  de  Pascoaes,  entre  outros,  iniciou  a sua  actividade literária, filosófica e política;  fundou  e dirigiu,  com  Jaime Cortesão, Cláudio  Basto  e  Álvaro  Pinto,  a  Nova  Silva,  revista  de  que  se  editaram  cinco números, entre 2 de Fevereiro e 10 de Abril de 1907, de teor libertário, e onde, a 2 de Fevereiro de 1907, iniciou colaboração com «O homem livre e o homem legal», artigo  que, pela densidade  da  crítica reflexiva,  justamente se deverá considerar  o texto da sua estreia filosófica, o qual, na ordem cronológica, se sucede ao já citado conto  «A  doida»,  ao  elogio  literário  e  de  ideias  «Guerra  Junqueiro»  (1906)  e  ao encomiástico  «Justiça  e  Liberdade!»  (1906),  dedicado  ao  malogrado  pedagogo anarquista espanhol Francisco Ferrer y Guardia, que viria a ser acusado de instigar a  insurreição  de  1909,  em  Barcelona,  contra a  monarquia,  que  se  saldou  na  sua condenação  e  fuzilamento  a  13  de  Outubro  do  mesmo  ano.  Leonardo,  que publicamente sempre manifestou um alto apreço intelectual por Ferrer, pronunciou- se dias antes, a 10 de Outubro, contra a sua condenação num comício na Casa do Povo, no Porto, promovido pelo Comité Pró-Humanidade.

Aderindo ao utopismo filosófico  e  político  do anarquismo, os  ideais reformistas  da sua juventude projectaram-se, em 1908, na criação, com  Jaime Cortesão e  Álvaro Pinto,  do  grupo  ideológico  e  literário  «Os  amigos  do  A.B.C.»    transposição fonética  do  nome  do grupo «Les  amis  de  l‘Abaissé»,  de  Les Miserables,  de Victor

 

Hugo  –,  cujo  objectivo era a ilustração do  povo, e que  teve expressão pública de ideias nas colunas do semanário portuense A Vida, onde Leonardo publicou diversos artigos em 1909. Não estanciou, porém, na palavra escrita nem nos ensinamentos particulares  aos  grupos  de  amigos  que com  que  ele  se  reuniam  em  tertúlias  nos cafés  do Porto:  no  período  de  1907  a  1909,  Leonardo  inflamou  ainda  com  o  seu verbo  os  comícios  de  propaganda  anti burguesa  e  libertária  e  começou  a  ser conhecido pelos seus vibrantes dotes de tribuno.

Concluídos  os  estudos  na  Politécnica,  mudou-se,  com  a  esposa  e  o  filho,  na segunda  metade  de  1909,  para  Lisboa,    residindo  até  1910,  período  em  que frequentou  o  Curso  Superior  de  Letras,  onde  obteve  brilhantes  resultados,  com rasgados  elogios  de alguns  dos  seus  professores,  como  Adolfo  Coelho  e  Joaquim

António  da  Silva  Cordeiro.  Viria  a  envolver-se,  com  Adolfo  Lima,  Emílio  Costa, Jaime  Cortesão  e  outros,  na  criação,  em  finais  de  1909,  do  Grémio  de  Educação Racional, que, inspirado nos princípios pedagógicos de Ferrer, erguendo a bandeira do  ensino racional  e livre,  tinha  por objectivo  a  fundação  de  «escolas  modernas» em Portugal.

Terminados os estudos no Curso Superior de Letras, que lhe conferiu a habilitação final  para  o  magistério  secundário,  na  secção  de  ciências,  ingressou  na  carreira docente em 1910, nomeado professor do 8.º grupo liceal (Matemática), tendo sido colocado  no  Liceu  da  Póvoa  de  Varzim  e  no  Liceu  Central  do  Porto,  mais  tarde designado Rodrigues de Freitas, pelo qual optou. Pelos fins do ano lectivo de 1910- 11,  o  pensador  trabalhou  num programa  de conferências sobre  temas  filosóficos, científicos, pedagógicos e literários que pretendia realizar no Brasil e na Argentina, mas que não veio a concretizar-se.

Designado  administrador  do  concelho  da  Maia  (Porto)  em  1911,  pouco  tempo  se manteve  no  lugar,  vindo  a  ser  nomeado,  a  9  de  Outubro  de  1911,  director  do Colégio dos Órfãos, em Braga, cujo discurso de posse proferiu a 27 do mesmo mês.

Aí decidiu empreender  reformas científicas e pedagógicas,  mas  encontrou fortes  e insolúveis  resistências  dos  docentes,  demitindo-se  do  cargo.  Abandonou  a instituição a 8 de Dezembro do mesmo  ano e regressou ao Porto. Sobre as razões que o levaram a demitir-se, deu entrevista a Oldemiro César, que a publicou, a 15 de Dezembro de 1911, no jornal A Montanha.

Os primeiros meses de 1912 não devem ter sido fáceis com a ausência de recursos económicos.  Leonardo  encontrou-se  sem  trabalho.  Era  impossível  a  entrada  nos estabelecimentos portuenses de ensino, uma  vez iniciado  o ano lectivo. Repartiu a sua vida entre o Porto e a Lixa. Com Jaime Cortesão, Augusto Martins, Teixeira de Pascoaes, Raul Proença, José Teixeira  Rego, António Sérgio, Mário Beirão,  António Carneiro,  Álvaro  Pinto,  entre  outros,  abraçou  o  projecto  da  «Renascença Portuguesa»,  movimento  cultural,  literário,  artístico  e  filosófico,  cujas  primeiras bases  foram  lançadas  em  reuniões  em  Coimbra  e  Lisboa  (Agosto  e  Setembro  de 1911),  oficialmente nascido em Janeiro de 1912,  com  sede  no Porto, que teria na revista  A  Águia  (2.ª série)  o seu  órgão oficial.  Com  os  companheiros, dedicou-se também à criação da  Universidade Popular do Porto, que correspondia aos anseios reformistas do grupo, aos seus ideais pedagógicos de elevação do nível cultural da sociedade, e que teria a sua  sessão de abertura, com uma  primeira lição, a 16 de Março de 1912, no Ateneu Comercial do Porto.

Leonardo  colaborou activamente  no lançamento de A  Águia. Publicou, no primeiro número,  «Uma  fala  de  espíritos»,  texto  datado  de  12  de  Setembro  de  1911  e redigido na Lixa, pouco tempo antes de assumir a direcção do Colégio dos Órfãos, com a menção de pertencer a um livro inédito, As Falas dos Seres, que não chegou até  nós  ou  não  obteve,  como  o  citado  artigo,  continuidade.  Mas  o  facto  mais relevante é o surgimento na revista, em Fevereiro de 1912, do artigo simplesmente intitulado  «Excerto»,  igualmente  redigido  na  Lixa,  dedicado  a  questões epistemológicas e às geometrias não-euclideanas, que corresponde parcialmente ao capítulo III,  «O  Espaço»,  de  O  Criacionismo:  Esboço  de  um  Sistema  Filosófico,  o seu primeiro livro, que redigiu com o objectivo de apresentá-lo a um concurso para professor assistente do grupo de Filosofia da Faculdade  de Letras  da  Universidade de  Lisboa.  Na  tese  laborou  o  pensador  desde  os  princípios  de  1912,    que  em Fevereiro deu à luz o referido «Excerto», pelo que a datação de 5 de Maio a 20 de Junho de 1912, por si indicada no final de O Criacionismo, deve equivaler ao tempo intensivo da escrita.

Finalizada  a  tese  a  20  de  Junho,  no  dia  seguinte  auscultou  Teixeira  de  Pascoaes sobre as suas conclusões. A 22 de Junho, o filho, de 4 anos, adoeceu gravemente.

Apesar do zelo dos médicos, acabaria por falecer, na Lixa, a 29 do mesmo mês, no mesmo  quarto onde,  em 1901, seu avô  expirara  nos  braços  de  Leonardo. Luto e muita dor. O Filósofo  recordar ia a nefasta semana  de doença  e  morte do filho  em 1918, na carta-prefácio à Luta pela Imortalidade, dedicada à esposa. Foi em estado de agonia que, em Julho, se apresentou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para a defesa da tese. O lugar de assistente resolver-lhe-ia os problemas de subsistência. Porém, a fama de revolucionário  que  lhe  vinha  da  juventude  e  a própria  tese  fundamente  anti positivista,  apresentada  a  uma  instituição  onde  o positivismo  era  a  ortodoxia  dominante,  informaram  de  preconceito  o  júri  e contrariaram  as  suas  pretensões.  Com  Joaquim  António  da  Silva  Cordeiro,  o professor arguente, ainda houve da parte do examinando tentativa de diálogo, mas o  antagonismo ideológico do primeiro  e as posições filosóficas antípodas de ambos obrigaram  o  pensador   nortenho  a  retirar-se  do  concurso.  Do  que  houve  de vexatório  neste  episódio,  deu  conta  o  próprio  Leonardo  no  artigo  «Porque abandonei o concurso», que em Janeiro de 1913 publicou em A Vida Portuguesa.

De regresso ao Porto, decidiu-se a publicar a tese,  o que efectivamente aconteceu nos  inícios de  Agosto de 1912. Impressa  na Tipografia  Costa Carregal, saiu com a chancela  da  Renascença  Portuguesa.  Mas  Leonardo  continuava  sem  emprego.  Os liceus  portuenses  Rodrigues  de  Freitas  e  Sampaio  Bruno  mantiveram  as  portas fechadas, «pela má vontade caluniosa dos reitores», lembraria o próprio Leonardo, em  1918,  na  carta-prefácio  à  Luta  pela  Imortalidade.  Socorreu-se,  então,  da amizade de António dos Santos  Graça (n. 1880 œ  f.  1956), político republicano da Póvoa  de  Varzim,  homem  de  grande  influência  no  poder  local.  Foi  graças  à intervenção  do  político  poveiro  que  Leonardo  foi  admitido  como  professor provisório, na secção  de  ciências físicas  e  naturais,  ao  Liceu  da  Póvoa  de  Varzim.

No ano lectivo de 1912-13, estabeleceu-se com a mulher na Póvoa, não sem antes a  notícia  da  presença  do  «professor  anarquista»  ter  perturbado  a  sociedade poveira,  apesar  de  o  seu  anarquismo  ser,  nesta  altura,  apenas  uma  bandeira  da juventude, realizado o trânsito que fizera para o republicanismo quando sobreveio a revolução  de 1910  e  a  instauração da  República.  Com  efeito,  em  1912,  Leonardo era já republicano,  embora sem  filiação partidária. No tempo em que  ali  leccionou (1912-14), desfez  os  receios  dos  poveiros pela  actividade exemplar  de  professor, orador  e  colaborador  da  imprensa  local  (sobretudo  no  Comércio  da  Póvoa  de Varzim). A sua actividade docente não se circunscreveu ao Liceu: no ano de 1913- 14,  ensinou  na  Universidade  Popular da  Póvoa de  Varzim, inaugurada  nos  fins  de Dezembro de 1913, que ajudara a fundar, e na Universidade Popular do Porto.

Pela  mão  de  Santos  Graça,  filiou-se,  em  Janeiro  de  1914,  no  P.R.P.  (Partido Republicano  Português),  onde,  no  mesmo  ano,  chegou  a  ser  Presidente  da Comissão  Política.  Possivelmente  pela  mesma  altura  entrou  na  Maçonaria,  talvez sob  os auspícios de  Santos  Graça,  tendo  sido  iniciado  na  Loja  Luz  e  Caridade  da Póvoa  de  Varzim, do Grande Oriente  Lusitano  Unido,  subordinada ao rito  francês, onde  adoptou  o  nome  simbólico  Kant,  tendo mais  tarde transitado  (1919)  para  a

Loja Madrugada e a Loja Renascença, em Lisboa. A adesão do filósofo à Maçonaria – natural à luz do contexto político republicano da época: ela esteve na origem do P.R.P.  e  muitos  maçons  pertenciam  ao  partido    foi  circunstancial  por  ser fundamentalmente política. Tal como aconteceu com outros da sua geração (Jaime Cortesão, por exemplo, aderiu em 1911, na Loja Redenção de Coimbra), Leonardo viu  nela  o  que  pragmaticamente  era  a  sociedade  maçónica:  uma  instituição  útil para quem quisesse ingressar na vida política e na administração pública. Graças a ela,  abriu-se-lhe  a  carreira  política.  Do  pouco  que  se  conhece  desta  filiação  (o pensador a isso nunca se referiu), pode-se com certeza afirmar que a  evolução de Leonardo se manteve nos graus mais inferiores do rito francês, tendo sido irradiado em 1930  por falta  de  pagamento  de  quotas,  o  que  bem  demonstra da sua  parte ausência de autêntico envolvimento.

O ciclo poveiro da vida do filósofo consolidou-lhe a esperança no futuro. Na Póvoa, a  9  de  Abril  de  1914,  nasceu-lhe  o  segundo  filho,  Leonardo  Augusto.  Na  Póvoa rasgaram-se-lhe  novas  promessas.  Escreveu  e  publicou  A  Morte  (1913),  texto  da conferência, com o mesmo título, proferida no Centro Comercial do Porto, na noite de  23  de  Julho  de  1913,  a  convite  da  Renascença  Portuguesa,  inspirado  pela recordação da morte do primeiro filho,  e redigiu o  conjunto de lições que proferiu, de  Abril a  Maio  de  1914, na Universidade  Popular do Porto,  que  daria origem a O Pensamento Criacionista (1915), cujos  materiais  lhe terão servido  também para  o curso  na  Universidade  Popular  da  Póvoa  de  Varzim  (concluído  a  8  de  Abril  de 1914).

No ano lectivo  de  1914-15,  ensinava  no  Porto,  no  Liceu  Rodrigues  de  Freitas,  de onde  rumaria  para  Lisboa  a  leccionar  no  Liceu  Gil  Vicente  (1915-19).  Este  é também o período da Grande Guerra (1914-18), acontecimento que influenciaria a especulação  do  filósofo    sobre  ela  escrever ia,  entre  1916  e  1919,  páginas notáveis de vibrante significado ético e de exaltante espiritualismo cristão –, como se  pode  apreciar nalgumas  passagens  de  A  Luta  pela  Imortalidade  e nos registos jornalísticos da conferência «Significado Espiritual da Guerra Europeia (Portugal na Guerra)», que proferiu, em Julho de 1918, no Centro Evolucionista (Lisboa). Estava o  poder  político  em  Portugal  sob  o  jugo  de  Sidónio  Pais.  Quando  o  conferencista  terminou,  o  Centro  foi  assaltado  por  forças  policiais,  aos  tiros.  Deste  episódio resultaram dois mortos e vários feridos. Entre outros, como Gastão Correia Mendes (reitor do Liceu Gil Vicente), João Camoesas, Afonso Duarte, Raul Proença e Ângelo Ribeiro,  Leonardo  foi,  sob  ordem de prisão,  escoltado,  como  conspirador contra  o sidonismo, para os calabouços do Governo Civil. Na  escrita deste período, além de O Pensamento Criacionista (1915), publicou A Alegria, a Dor e a Graça (1916) e A Luta pela Imortalidade (1918).

É  no  ano  de  1919  que  ganha  relevância  a  sua  carreira  política:  deputado  pelo Círculo  de  Penafiel,  assumiria,  a  30  de  Março,  a  pasta  de  Ministro  da  Instrução Pública,  no  16.º  governo  republicano,  primeiro  mandato  governamental  de Domingos  Leite  Pereira e  2.º  governo  pós-sidonista,  onde  se  manteria até  29  de Junho do mesmo ano,  data  que  coincide com  o  fim deste governo.  Do que há  de mais relevante na sua actividade ministerial, criou as Escolas Primárias Superiores, reestruturou a Biblioteca Nacional, para a qual nomeou director Jaime Cortesão, o Conservatório  de  Música  de  Lisboa,  que  passou  a  designar-se  Conservatório Nacional  de  Música,  e  os   serviços  de  Instrução  Primária,  reorganizou  o  Teatro Nacional  Almeida  Garrett,  introduziu  alterações  ao  regulamento  do  Ensino Secundário,  criou  um  curso  de  Fisiologia,  Embriologia  e  Biologia  Gerais  na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e um curso prático de Psicologia Experimental nas Escolas  Normais do Porto e de Coimbra. Propôs ainda uma  nova reforma dos estudos filosóficos liceais e universitários. O  acto  mais  polémico  do  ministro,  que  acenderia  os  ânimos  e  se  estenderia  em controvérsia,  foi  a  sua  ordem  de  desanexação  da  Faculdade  de  Letras  da Universidade de Coimbra e sua transferência para a Universidade do Porto (Decreto n.º  5.770 de  10  de  Maio  de  1919).  O  mesmo  decreto criava  na  Universidade  de Coimbra  uma  Faculdade  Técnica  e  uma  Escola  de  Belas -Artes  a  ela  anexa.

Sobrevieram movimentos de protesto em Coimbra contra a desanexação e sessões parlamentares  consecutivas  que  se  prolongaram  até  finais  de  Julho  de  1919,  já Joaquim José de Oliveira sucedera a Leonardo no Ministério da Instrução Pública. O governo viria a confirmar a continuidade da Faculdade em Coimbra e  a  criação de uma nova Faculdade de Letras no Porto (Lei 861, de 27 de Agosto de 1919). A este contexto  se  deve  o  opúsculo  A  Questão  Universitária,  texto  do  principal  discurso que sobre  essa matéria o filósofo pronunciou na  Câmara dos Deputados, impresso no mesmo ano de 1919.Extinta  a  polémica,  entrou  como  professor  na  Faculdade  de  Letras  do  Porto  em Novembro  de  1919.  A  entrada  de  Leonardo  Coimbra  foi  precedida  por  relatório fundamentado  dos  professores  do  6.º  grupo  (ciências  filosóficas)  propondo  a  sua nomeação  para o  mesmo  grupo.  Damião Peres  ocupava  interinamente as funções de  Director.  Ao  longo  da  sua  carreira  universitária,  até  1931,  ano  do desaparecimento  da  Faculdade,  Leonardo  Coimbra,  que    leccionou  História  da Filosofia Moderna,  Lógica e Moral, Psicologia Experimental e Psicologia  Geral, faria parte de um  corpo  docente  ilustre,  que  ajudou  a criar : Aarão de  Lacerda, Ângelo Ribeiro, Augusto Nobre, Canuto Soares, Damião Peres, Francisco Torrinha, Hernâni Cidade,  Homem  Cristo, Luís Cardim,  Mendes  Correia,  Newton  de  Macedo, Teixeira Rego, etc.

Logo  após  a  sua  admissão  como  profes sor,  Leonardo  assumiu,  em  finais  de Novembro  de  1919,  a  direcção  da  Faculdade  e  nessa  qualidade  presidiu  pela primeira  vez  ao  Conselho  Escolar  na  sessão  de  29  de  Novembro  de  1919. Consagrou-se  ao  ensino,  à  instituição  e  à  escrita.  Fundou,  em  Abril  de  1920,  a Revista  da  Faculdade  de  Letras  da  Universidade  do  Porto,  cujo  primeiro  número saiu  neste  ano,  com  um  conselho  de  redacção  composto  por  Leonardo,  Hernâni Cidade  e  Mendes  Correia  e  que  contava  entre  os  possíveis  colaboradores estrangeiros com Bergson,  Unamuno e G. Dumas. No primeiro volume, publicou o pensador  o  extenso  e

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