No Tempo de Jeremias

 

Escolhido antes

 

De Nascer

 

 

Jeremias 1; 2 Reis 23, 28-36; 2 Crónicas 35, 20-36, 5

 

Quando o rei Josias era um jovem de cerca de 20 anos, havia outro rapaz, chamado Jeremias, que se estava a preparar para servir a Deus como sacerdote no templo de Jerusalém. Mas Deus tinha outros planos para ele.

Um dia Deus falou-lhe e disse:

   Jeremias, muito antes de tu teres nascido, Eu escolhi-te para que fosses Meu profeta, fazendo chegar a Minha palavra ao povo de Judá e às nações que o rodeiam.

   Por favor, não me peças que faça isso — respondeu Jeremias. — Sou demasiado novo para desempenhar uma missão tão importante. Ainda por cima não tenho jeito nenhum para falar.

   Eu estarei contigo para te ajudar disse Deus.

Em seguida, estendeu a mão e tocou na boca de Jeremias.

   Dar-te-ei as palavras que deves dizer.

Jeremias sabia que não valia a pena discutir com Deus. Mesmo que a tarefa que lhe incumbia fosse revelar-se muito difícil, devia fazer o que o Senhor mandava.

   Que vês? — Perguntou-lhe Deus.

Jeremias olhou com atenção. Reparou então num grande caldeirão, posto ao lume sobre um fogo crepitante. Enquanto estava a olhar, a sopa da panela entrou em ebulição e começou a vir por fora. O líquido escaldante escorria abundantemente pela borda.

Então, Deus disse:

   Tal como estás a ver, virá um inimigo submergir Judá e destruir Jerusalém. Cabe-te prevenir o povo. Se parar de adorar o Baal e começar a obedecer às Minhas leis, escapará à catástrofe. Se não escutarem, o inimigo vem mesmo. Jeremias ficou a pensar quem poderia ser o inimigo desconhecido, pois nesta altura o grande império Assírio tinha enfraquecido e perdido poder. Mas acreditou no aviso do Senhor e começou a dizer às pessoas que voltassem para Deus. Sabia que, embora o rei Josias amasse sinceramente e obedecesse a Deus, o povo tinha o coração dividido. Não tinha alterado por completo os seus hábitos.

Josias foi morto em combate contra os Egípcios, quando contava apenas 30 anos. Os Egípcios, vitoriosos, levaram dali o filho de Josias, para o país deles, e colocaram um rei da sua escolha no trono de Judá. Tratava-se de outro filho de Josias, chamado Joaquim. Este tinha de proceder segundo as ordens do Egipto.

 

 

Jeremias 18-19

 

 

Um dia, Deus disse a Jeremias:

— Vai à oficina do oleiro e Eu

Revelar-te-ei a Minha mensagem ali.

Jeremias pôs-se a caminho do bairro da cidade onde os oleiros fabricavam e vendiam os seus produtos. Pôs-se a observar em silêncio o artesão que moldava o barro com habilidade e fazia o pote girar no torno. Então, qualquer coisa saiu mal e o pote estragou-se. Talvez houvesse alguma pedrinha metida no barro. O oleiro amassou o barro ainda mole numa bola e, com toda a paciência, recomeçou a trabalhá-lo.

A voz de Deus chegou suavemente aos ouvidos de Jeremias.

   Eu estou disposto a fazer com o Meu povo o que o oleiro acaba de fazer com o barro. Se dissessem que estavam arrependidos e dispostos a corrigir o modo como vivem, Eu seria capaz de começar de novo esta nação boa e útil.

Deus tinha outra lição para dar a Jeremias.

   Compra uma bilha de barro disse-lhe Deus — e leva-a para a cidade. Faz-te acompanhar de alguns dos sacerdotes e dos chefes mais velhos.

A pequena procissão lá seguiu caminho para fora de Jerusalém, com Jeremias à frente, transportando a bilha de água sobre a cabeça. Seguia-os uma multidão de gente curiosa. Os homens nunca transportavam bilhas de água isso era trabalho das mulheres! O que iria aquele estranho profeta fazer a seguir?

Quando Jeremias chegou ao vazadouro, arremessou a bilha ao chão com toda a força, desfazendo-a em mil bocados.

   Escutem! — Falou ele para a multidão. — Deus tem estado à espera, desde há muito tempo, com imensa paciência, que vocês se voltem para Ele. Queria dar-vos coisas boas. Mas em vez de serem brandos como o barro a que o oleiro dá forma, vocês tornaram-se duros e desobedientes. Se não se virarem para Deus, serão quebrados como a bilha. Virá um inimigo que nos vencerá.

Em seguida, Jeremias subiu o caminho íngreme que levava à cidade, onde entrou para ir pregar o mesmo sermão no templo. Os sacerdotes e chefes importantes estavam furiosos. Como se atrevia Jeremias a dizer que o país ia ser conquistado? Um deles deu ordem para que Jeremias fosse detido, espancado e posto a ferros até á manhã seguinte

 

 

 Jeremias 36

 

 

Durante mais de 20 anos, Jeremias continuou a prevenir o povo de Judá, aconselhando-o a virar-se de novo para Deus, antes que um inimigo viesse e destruísse Jerusalém.

Um dia Deus disse-lhe:

   Põe por escrito todas as mensagens que Eu te dei, desde o tempo em que Josias era rei até ao dia de hoje. Talvez o povo as escute e se arrependa de Me ter desobedecido. Então Eu poderei perdoar-lhe e salvá-lo.

Jeremias comprou um rolo de papiro e Baruc, o seu ajudante, começou a escrever o que o profeta ia ditando Por fim, quando terminaram, Jeremias disse:

   Vai ao templo e lê o rolo ao povo. Eu não estou autorizado a entrar ali, por isso deves ser tu a transmitir-lhe as palavras de Deus.

Baruc esperou até que afluiu grande multidão ao templo, num dia santo. Nessa altura, leu-lhes o que tinha escrito.

Um dos ouvintes falou aos oficiais do palácio acerca do rolo e eles pediram para o ver também.

Quando ouviram as duras palavras de Jeremias, perceberam logo que ele ia ver-se em maus lençóis quando o rei soubesse daquilo.

   Tu e Jeremias devem esconder-se enquanto nós levamos o livro ao rei disseram a Baruc.

Era Inverno e o rei Joaquim encontrava-se sentado junto de um fogo crepitante para se aquecer. Quando o secretário lhe leu a primeira parte do livro de Jeremias, a expressão do rei ficou muito sombria. Arrancou o rolo das mãos do outro e com um canivete cortou a parte que acabara de ser lida. Lançou-a para o fogo e ficou a vê-la arder.

Quando o secretário continuou a ler, o rei escutou e em seguida cortou e queimou a parte que tinha acabado de ouvir, até que, assim, o livro inteiro foi destruído nas chamas.

   Prendam Jeremias — ordenou o rei

Mas, por esta altura, Jeremias e Baruc já se encontravam a salvo, bem escondidos.

   Recomeça, desde o princípio —disse Deus a Jeremias —, escreve tudo mais uma vez num novo rolo.

Assim, Jeremias voltou a ditar e Baruc voltou a escrever pacientemente, até que a palavra de Deus ficou registada para todos escutarem ou lerem, desde aquele dia e para sempre.

 

 

Jeremias 27-28; 2 Reis 24, 1-16; 2 Crónicas 36, 1-10

 

 

Quando o rei Joaquim queimou o rolo de Jeremias, mostrou claramente que não queria saber de Deus para nada. Mas o Senhor desejava de tal modo perdoar ao Seu povo e torná-lo feliz que esperou ainda muito tempo antes de enviar o inimigo, conforme ameaçara.

Nesta altura, Jeremias já tinha adivinhado quem seria aquele inimigo. O novo império da Babilónia tinha subjugado o Egipto e conquistado a Assíria. O rei Nabucodonosor, da Babilónia, tinha obrigado o rei Joaquim a submeter-se a ele, também.

Durante três anos, Joaquim fez o que lhe mandavam, mas depois começou a conspirar contra a Babilónia. Nabucodonosor partiu de imediato para Jerusalém, a fim de ensinar ao rei uma lição.

Joaquim não chegou a ver a aproximação dos Caldeus. Morreu antes disso. O filho, que não era melhor do que o pai, ocupava o trono quando o exército babilónico irrompeu por Jerusalém dentro em triunfo.

Nabucodonosor levou o novo rei e a sua corte para a Babilónia, juntamente com os melhores cidadãos de Jerusalém. Os jovens mais fortes e mais inteligentes e os trabalhadores mais habilidosos foram levados dali. Do mesmo modo, Nabucodonosor despojou o templo dos seus tesouros e carregou tudo com ele.

Jeremias ficou em Jerusalém, onde ocupava o trono Sedecias, o novo rei escolhido por Nabucodonosor. Tinha de fazer o que os conquistadores ordenavam e não causar problemas, se queria que Jerusalém fosse poupada.

A maioria das pessoas que permaneceram na cidade estava relativamente contente.

— Os cativos em breve regressarão da Babilónia e vão trazer os tesouros do templo com eles — diziam.

Mas Jeremias sabia que aquilo não era verdade.

Fez um jugo de madeira, do género s que usam os bois quando andam a arar, e pô-lo no seu próprio pescoço.

   Escutem — disse ele às pessoas —, sejam obedientes ao rei Nabucodonosor e sirvam sob o seu jugo. Se o fizerem, Deus diz que escaparão aos distúrbios terríveis que de outro modo hão-de acontecer nesta cidade.

Mas um homem foi direito ao profeta, à bruta, tirou-lhe a canga dos ombros e quebrou-a.

   Aí tens! — Bradou triunfante. — Isso é o que vai suceder à dominação da Babilónia. Nós em breve conseguiremos libertar-nos e então os cativos não vão tardar em regressar.

   Como eu gostava que estivesses a falar verdade — disse Jeremias. — Mas hão-de passar 70 longos anos antes que algum dos nossos volte!

 

 

Jeremias 24

 

 

Aqueles que ficaram em Jerusalém, depois de o rei Nabucodonosor levar os cativos, sentiam-se muito contentes consigo próprios. Achavam que Deus devia estar satisfeito com eles para os deixar permanecer no seu país, assim como havia de ter-se irritado com os que tinham sido levados para a Babilónia.

Mas os cidadãos de Jerusalém, que se encontravam nesta altura longe das suas casas, tinham começado a aprender a sua lição. Sentiam-se arrependidos de ter desobedecido a Deus.

Um dia, Deus disse a Jeremias:

   Olha para aqueles dois cestos de figos que estão em frente do templo. Que tal te parecem?

   Um dos cestos está cheio de figos escolhidos e maduros — respondeu Jeremias. — Têm um aspecto delicioso. Mas os figos do outro cesto estão todos podres. Não prestam para comer.

   O povo de Jerusalém é como aqueles cestos de figos — continuou Deus. — Aqueles que foram levados para a Babilónia parecem-se com os figos bons. Vou tomá-los a meu cuidado e zelar por eles e, no fim, hei-de trazê-los de volta para o seu país. Eles estão a aprender a confiar em Mim e a obedecer-me. Mas o rei Sedecias e a sua corte e toda a gente que aqui permaneceu assemelham-se aos figos estragados. Fartam-se de ser maus e não querem mudar de vida. Continuam a conspirar e a fazer planos contra o rei da Babilónia. Vão acabar como os figos podres... sem que se aproveite um só!

 

 

Jeremias 38

 

 

Uma vez e outra, Jeremias transmitiu a mensagem de Deus ao rei Sedecias.

   Não conspires com o Egipto contra a Babilónia — implorou-lhe. Respeita a promessa que fizeste ao rei Nabucodonosor.

Mas Sedecias não lhe ligava nenhuma. Por fim, as intrigas dele chegaram aos ouvidos de Nabucodonosor, que voltou a mandar o seu exército contra Jerusalém.

Algum tempo depois, os Caldeus levantaram o cerco a Jerusalém para ir combater contra o exército egípcio. Todos soltaram um suspiro de alívio.

Mas Jeremias avisou o rei Sedecias:

   Não penses que os teus problemas acabaram. O exército inimigo não tarda em regressar. Mas Deus pode ainda ajudar-te se fizeres o que Ele diz e te renderes a Nabucodonosor.

Ninguém concordou com aquele conselho e Jeremias tornou-se impopular. Um dia, quando ia a sair da cidade, prenderam-no.

   Querias fugir para passar para o lado dos Caldeus, não era? Interrogaram-no.

   Eu não ia fugir — protestou Jeremias.

Mas ninguém acreditou nele. Bateram-lhe e meteram-no na cadeia. Mas continuava a vir muita gente ter com ele para escutar as mensagens de Deus, por isso os inimigos dele na corte pediram autorização ao rei para o lançar a uma cisterna, que ficava no pátio do cárcere.

Enfiaram-no pela abertura estreita e desceram-no por meio de cordas até ao fundo. Quando os pés de Jeremias tocaram no chão, ficaram metidos no lodo até aos tornozelos. As paredes do poço eram viscosas e escorregadias e ali dentro estava escuro e muito húmido. Jeremias sentiu-se preso no lodo frio e malcheiroso.

Abdemelec. Um oficial etíope do palácio, ouviu falar do destino que sofrera o seu amigo Jeremias e apressou-se a ir ter com o rei.

   Majestade — começou,

Alarmado —, os teus criados cometeram um acto muito grave. Abandonaram Jeremias dentro de uma cisterna onde ele morrerá de fome.

   Leva uns quantos homens contigo e tira-o de lã para fora — ordenou o rei.

Abdemelec foi primeiro aos armários do palácio e juntou umas roupas velhas. Em seguida, a equipa de salvamento pôs-se a caminho do cárcere.

   Jeremias! Ei, aí em baixo!

 Gritou Abdemelec.

As cabeças tapavam o pequeno círculo de luz que penetrava até à profundidade a que se encontrava o profeta.

   Vamos fazer descer uma corda e uma trouxa de trapos velhos. Põe os panos debaixo dos braços antes de mais, para que a corda não te magoe. Depois ata bem a corda e nós içamos-te até cá a cima num abrir e fechar de olhos.

Assim que Jeremias ficou pronto, os quatro homens puxaram com toda a força. Ao fim de uns momentos, os pés de Jeremias soltaram-se do lodo e ele começou a subir. Pouco depois voltava a ver a luz do dia e a respirar o ar puro e fresco. Como ele deu graças a Deus por lhe enviar Abdemelec!

 

 

2 Reis 25; 2 Crónicas 36, 11-21

 

 

Tudo o que Jeremias dissera ao rei Sedecias veio a acontecer, por fim. O exército babilónico em breve regressou e acampou outra vez a toda a volta de Jerusalém. O rei mandou chamar Jeremias.

   Peço-te, dá-me a mensagem de Deus! Quero saber a verdade nua e crua disse ele.

   Se eu te disser a verdade, vais mandar-me matar e, se te der um conselho, não o segues — replicou Jeremias.

Tinham sido demasiadas vezes que Sedecias pedira a mensagem de Deus, apenas para a ignorar por completo.

   Prometo que nada te acontecerá disse o rei.

   Então, esta é a mensagem de Deus falou Jeremias. — Rende-te ao rei da Babilónia agora.

   Tenho medo do que ele me poderá fazer — respondeu o rei.

   Deus promete-te que ele não te ferirá se te renderes. Mas o Senhor revelou-me as coisas terríveis que acontecerão se resistires, ou se tentares fugir.

Mais uma vez, Sedecias desobedeceu a Deus e continuou a fazer frente a Nabucodonosor.

Os Caldeus mantiveram o cerco a Jerusalém durante dois anos, enquanto o povo ia morrendo à fome. Por fim, o exército inimigo transpôs as muralhas e penetrou na cidade. O rei Sedecias fugiu, em pânico, com os seus soldados, escapando-se através dos jardins do palácio e saindo da cidade por uma passagem secreta. Mas os inimigos apanharam-no num instante. Devido à sua atitude traiçoeira, não tiveram nenhuma misericórdia e ele terminou os seus dias na Babilónia, cego e preso com grilhões.

A seguir, os Caldeus derrubaram as muralhas de Jerusalém e incendiaram o templo, o palácio e todas as belas casas dos ricos. Levaram os cidadãos para a Babilónia, deixando permanecer ali apenas a gente muito pobre.

Jeremias ficou também.

Os reis e o povo de Judá tinham-se recusado vezes de mais a escutar as palavras de Deus, transmitidas pelos profetas. Agora, iam viver no exílio, afastados da sua pátria, por muitos e muitos anos.