A História de José

 

                                                                                

                                                                 Desavenças Familiares

Génesis 37

Jacob e a família estavam de novo em segurança em Canaã. Mas os ciúmes e as desavenças entre as mulheres dele e entre os filhos de cada uma

Continuavam.

Jacob sentia-se contente por ter uma grande família — todo o pai, naquele tempo, queria ter muitos filhos para o ajudarem —, mas Raquel era a única mulher que ele amava. Ficou muito desgostoso quando ela morreu por ocasião do nascimento do segundo filho, Benjamim.

Por causa do seu amor por Raquel, Jacob tratava José, o primeiro dos dois filhos que ela lhe dera, como se o rapaz fosse o seu primogénito. Tal atitude causava muita raiva nos outros irmãos, mais velhos do que José.

Jacob ofereceu a José uma veste especial com mangas compridas, do tipo que só um privilegiado filho primogénito podia esperar-receber.

Vendo como Jacob amava tão especialmente José, os outros filhos odiavam o irmão. Quando iam tomar conta dos rebanhos do pai, partiam de casa sempre a resmungar e a praguejar.

Jacob mandou José ajudar uns dos irmãos a guardar os rebanhos. O rapaz ficou chocado com algumas coisas que viu fazer e, quando chegou a casa, contou tudo ao pai. Isso ainda agravou mais a situação. Os irmãos odiavam José de tal modo que nem sequer falavam com ele. Se José tentava dirigir-lhes a palavra, não lhe ligavam nenhuma e continuavam a conversar e a rir entre eles.

Ninguém naquela casa era realmente feliz.

 

 

                                                                                  Os SONHOS

Génesis 37

Uma noite, José teve um sonho estranho.

        Oiçam, por favor, o que sonhei! Pediu aos irmãos na manhã seguinte. Encontrávamo-nos todos no campo a ceifar e a atar os feixes de cereal. De repente, o feixe que eu estava a atar ergueu-se e ficou de pé. Então todos os vossos feixes se colocaram em círculo à volta do meu e inclinaram-se para ele.

Se José pensava que os irmãos iam ficar satisfeitos e interessados naquele sonho, enganou-se redondamente.

        Quem pensas tu que és? Perguntaram-lhe, furiosos. — Estás convencido de que vamos inclinar-nos diante de ti e prestar-te os nossos respeitos?

Algum tempo depois, José teve outro sonho, tão estranho como o primeiro. Desta vez, ele contou-o também ao pai.

        Sonhei que o Sol e a Lua e onze estrelas vinham todos prostrar-se diante de mim.

Falava de onze estrelas e José tinha onze irmãos. Estes não tardaram em descobrir o que ele queria dizer.

        O alto e poderoso José julga que nós teremos todos de o tratar como o senhor — murmuravam entre si.

Até Jacob ficou um tanto agastado e preocupado. Pensou que o Sol e a Lua do sonho poderiam representá-lo a ele próprio e à mulher.

        Estás mesmo convencido de que serás mais importante do que os teus pais? — Perguntou a José.

Mas, embora desse uma reprimenda a José, Jacob continuou a pensar no sonho. Poderia tratar-se de uma maneira de Deus lhe dizer que tinha escolhido José para se tornar alguém muito especial na família?

 

 

                                                                                   Lançado ao Poço!

 

Génesis 37

Um dia Jacob veio à procura de José. Queria encarregá-lo de uma tarefa.

        Os teus irmãos já andam por fora há muito tempo — disse-lhe. — Estou preocupado. Vai à procura deles. Certifica-te de que se encontram bem.

José partiu na direcção que os irmãos tinham tomado e foi perguntando por eles a quem encontrava pelo caminho. Por fim, conseguiu localizá-los.

Quando ele ainda vinha à distância, os irmãos avistaram-no. Reconheceram-no logo por causa da veste comprida que Jacob lhe dera.

        Olhem! — Gritou um deles. — Lá vem o homem dos sonhos!

— Temo-lo à nossa mercê, agora disse outro. — E se o matasse-mos

Já que temos esta oportunidade? Depois veríamos em que dariam os belos sonhos dele.

Rúben, o filho mais velho de Jacob, tentou detê-los nos seus intentos.

— É melhor não o matarmos. — Sugeriu. — Vamos antes lançá-lo para o fundo deste poço, que está seco. Assim, ele aprenderá a lição.

José já se encontrava a pouca distância naquela altura, por isso não havia tempo para mais conversa e planos. O rapaz aproximou-se, satisfeito, sem ter a mínima desconfiança de que lhe queriam fazer mal.

Dois dos irmãos, os mais fortes, agarraram-no e um terceiro despiu-lhe a bonita túnica. A seguir, tal como Rúben tinha sugerido, atiraram com ele para dentro do poço. Devido ao lodo acumulado não havia maneira de escalar as paredes altas e muito escorregadias, para sair daquele buraco.

Embora a arfar de emoção, os irmãos ficaram todos satisfeitos de se ver livres dele e sentaram-se a comer regaladamente.'-'Não se deixaram comover pelos gritos aflitivos de José, que pedia socorro.

 

 

A Caminho do Egipto

 

Génesis 37

Enquanto tomavam a sua refeição, os irmãos de José avistaram uma fila comprida de camelos que avançava na direcção deles. Pouco depois já distinguiam que se tratava de uma caravana de mercadores que levavam os camelos carregados de especiarias. Decerto dirigiam-se para o Egipto, para ali vender a sua mercadoria.

— Porque não vendemos o José aos mercadores? — Lembrou Judá. — É um plano muito melhor do que matá-lo e, ainda por cima, ganhamos algum dinheiro com isso.

Todos concordaram, excepto Rúben, que não se encontrava com eles.

Tudo se passou muito depressa. Ao mesmo tempo que uns dos irmãos discutiam o negócio com os viajantes, outros içavam José para fora do poço e traziam-no à força junto dos homens, para que estes o examinassem a ver se o compravam. Claro que ele tinha um aspecto forte e saudável. Podia render bom dinheiro no mercado de escravos.

Fecharam o negócio e José partiu com a caravana. Pouco depois voltou Rúben, que tinha planeado salvar José em segredo e levá4o às escondidas a Jacob. Ao descobrir que o poço estava vazio, ficou horrorizado. Os irmãos já teriam morto José?

Mas os outros logo explicaram a Rúben o que haviam feito. Faltava agora combinarem o que iam contar ao pai.

Agarraram na túnica especial de José, que lhe tinham tirado, rasgaram-na e sujaram-na de sangue de um cabrito.

Mal chegaram a casa, apresentaram a veste despedaçada a Jacob.

        Encontrámos isto — disseram-lhe. — Sabes se pertence ao teu filho?

Ao ver a roupa ensanguentada, Jacob soltou um grande grito.

        Ele deve ter sido morto por um animal selvagem — exclamou. — O meu filho querido, José, está morto! Nunca mais o verei! Hei-de chorá-lo para toda a vida!

Enquanto tudo isto se passava, José, fortemente amarrado com cordas, ia sendo puxado e arrastado ao longo da rota que conduzia ao Egipto. Mas Deus continuava a acompanhá-lo.

 

 

                                                                         José, Escravo

 

Escravo de Confiança

Génesis 39

Quando os mercadores madianitas chegaram ao Egipto, levaram José ao mercado dos escravos, onde o puseram à venda. Foi um homem chamado Putifar quem comprou José. Era um importante servidor do rei, chefe dos guardas do palácio. Não tardou que descobrisse que tinha feito muito bom negócio.

José era trabalhador e inteligente. Mostrou-se logo a organizar as tarefas que lhe competiam, do mesmo modo que obedecia prontamente a todas as ordens. Era um jovem sério, que não resmungava nem descurava as suas funções.

Em breve Putifar promoveu José, dando-lhe um cargo mais importante. Passou a deixar nas mãos dele cada vez mais responsabilidades do governo da sua casa. Putifar apercebia-se de que havia algo de muito especial naquele jovem. A razão era que Deus estava com José, mesmo encontrando-se este afastado da sua casa e da família.

 

                                                                                  A prisão de José

 

Génesis 39

José devia sentir-se em casa de Putifar tão satisfeito como um escravo alguma vês pode sentir-se.

Gozava da maior estima e confiança e tinha a consciência de que Deus continuava a estar com ele. Mas, decorrido não muito tempo, José viu-se de novo envolvido em sarilhos, e sem ter a menor culpa. A mulher de Putifar sentia-se fortemente atraída por este jovem tão bem parecido e, ao fim de algum tempo, começou a tentar conquistá-lo e fazê-lo seu amante, enquanto o marido estava ausente.

José nem queria ouvir as propostas dela.

— O meu senhor confia-me todos os seus bens — disse-lhe ele. — Como podia eu atraiçoá-lo e possuir a mulher dele? Além do mais, seria um pecado aos olhos de Deus, a quem eu amo e sirvo.

Mas a mulher de Putifar não aceitou que lhe negassem os seus desejos. Andava constantemente atrás de José, com falinhas mansas e a procurar conquistá-lo. O jovem bem queria evitar que os caminhos de ambos se cruzassem, mas um dia ela veio direita a ele. Quando o abraçou, José rodou sobre os calcanhares e fugiu a correr.

Desta vez, a mulher de Putifar ficou furiosa e resolveu contar ao marido uma série de mentiras sobre José. Fê-lo acreditar que tinha sido o escravo quem procedera mal e a desrespeitara.

Putifar então mandou meter José na prisão. Ali prenderam-lhe os pés com correntes e colocaram-lhe uma coleira de ferro à volta do pescoço. Tinha deixado de ser o homem de confiança.

Mas Deus estava com ele, mesmo na cela escura. Não o abandonara, nem esquecera os grandes planos que tinha para o futuro de José.

 

                                                                         O Intérprete dos Sonhos

 

Génesis 40

Não tardou que o governador da prisão descobrisse como José era prestável. Começou a encarregá-lo de toda a espécie de pequenos trabalhos, até tomar conta dos outros presos e de organizar a rotina da prisão.

Tudo o que José fazia era bem feito. Um dia, chegaram dois novos presos importantes. Um era o copeiro-mor do rei e o outro o padeiro-mor. Ambos tinham posições elevadas entre os servidores do faraó, mas por um motivo qualquer haviam desagradado ao seu senhor, que mandara metê-los na prisão. Deviam permanecer ali até que o rei decidisse que sentença lhes dava.

O chefe dos guardas designou José para os servir.

Certo dia, pela manhã, quando lhes trouxe o pequeno-almoço, José apercebeu-se de que ambos se mostravam acabrunhados.

— Que se passa?

— Perguntou-lhes, por delicadeza.

— Cada um de nós teve o seu sonho esta noite — explicaram eles — e não compreendemos o que querem dizer.

Como todos os egípcios, ambos acreditavam que todos os sonhos tinham um significado, mas ali na prisão não sabiam de ninguém que lhos interpretasse.

— E Deus quem dá a inteligência para interpretar os sonhos — replicou José. — Contem-me os vossos.

E escutou primeiro o copeiro-mor e a seguir o padeiro-mor, que lhe narraram o que haviam sonhado.

O copeiro tinha-se visto diante de uma videira com três ramos e ele próprio espremera as uvas para a taça de vinho do rei, a quem dera então o sumo a beber.

O padeiro sonhara que levava três cestos cheios de pães e pastéis deliciosos para o rei. Mas as aves aproximavam-se a voar e debicavam o conteúdo dos cestos.

Deus ajudou José a interpretar o sentido daquelas cenas.

— Dentro de três dias — disse o rapaz ao copeiro —, serás chamado à presença do faraó, que te vai restituir o teu cargo.

Mas, por outro lado, José teve de explicar ao padeiro:

— Daqui a três dias vais ser condenado à morte e executado por ordem do rei.

E tudo sucedeu conforme José tinha predito.

 

                                                                         O Preso e o Rei

 

Génesis 41

Quando o copeiro-mor, muito agradecido, saiu da prisão, José pediu-lhe que o ajudasse.

— Por favor, não te esqueças de mim

— Suplicou. — Diz ao rei que eu não cometi nenhuma má acção e não mereço estar na prisão.

José devia ter esperanças de que os seus dissabores terminassem em breve. Mas, mal o copeiro se viu de novo no palácio, varreu-se-lhe do pensamento toda a lembrança de José.

Passaram dois longos anos.

Então, uma noite, o rei do Egipto teve um sonho que nenhum dos seus sábios conselheiros soube explicar. De repente, quando isto sucedeu, o copeiro recordou-se do seu próprio sonho na prisão e da ajuda sábia e amiga que José lhe tinha prestado.

— Procedi mal — foi dizer ao faraó.

— Esqueci até hoje o jovem que me explicou o meu sonho quando estive preso. Ele revelou-me que eu seria posto de novo ao teu serviço e as suas palavras tornaram-se realidade. Decerto, José poderá igualmente ajudar-te.

Dadas as ordens, os servidores da corte correram à prisão para trazer o surpreendido José. A toda a pressa, deram-lhe banho, barbearam-no e vestiram-lhe roupas lavadas. A seguir, conduziram-no sem demora à presença do faraó.

— Disseram-me que sabes interpretar sonhos — falou o rei.

— Não sou eu que o faço, majestade — respondeu José. — É Deus que tem poder para tal.

— No meu sonho — continuou o faraó —, vi sete vacas gordas que subiram do rio e começaram a pastar a erva. Sete vacas magras e descarnadas vieram para junto delas. E as vacas enfezadas devoraram as gordas. Depois disso, sonhei de novo. Apareceram-me sete espigas grandes e cheias de grão e outras sete pequenas e ressequidas. As espigas mal crescidas engoliram grandes. Que podem querer dizer estes sonhos?

— Deus está a revelar-te o que vai acontecer, para que possas preparar-te explicou José. — Os dois sonhos referem-se à mesma coisa. Vai haver sete anos de boas colheitas e toda a gente terá fartura. Mas seguir-se-ão sete anos de escassez. Durante estes sete anos de fome gastar-se-ão as provisões dos anos fartos. É este o significado dos teus sonhos.

                                                                                   José, Governante

O Novo Ministro

 

Génesis 41

Quando ouviu José explicar-lhe os seus sonhos, o rei do Egipto ficou horrorizado. Percebeu que, apesar dos sete anos de colheitas abundantes, nos sete anos de penúria que se seguiriam far-se-ia sentir a fome e a morte. Contudo, José tinha algo mais a dizer.

— Majestade — adiantou-se ele —, permites que te sugira como deves proceder? Escolhe um dos teus homens e encarrega-o de administrar todas as reservas de alimentos. Ele deverá dirigir o armazenamento do cereal durante os anos de colheitas abundantes, para que se arrecade o suficiente para prover à alimentação de todos enquanto durarem os anos de colheitas escassas. Deste modo, o povo não sucumbirá à fome.

O faraó ficou muito satisfeito com José pelos seus sábios conselhos.

— Tu mesmo serás esse homem

 — Declarou. — Demonstraste que és prudente, por isso vou encarregar-te de tudo o que deve ser feito em todo o território do Egipto. Serás o meu novo ministro.

Segundo as ordens do faraó, José recebeu um belo carro, criados para o servirem e roupas finas e jóias.

José tinha aprendido a confiar em Deus e a fazer o seu trabalho bem feito, como escravo e mesmo na prisão. Dedicou-se às suas importantes funções exactamente da mesma maneira.

Percorreu todo o território do Egipto de norte a sul e de leste a oeste. Em cada uma das cidades deu ordens para construírem silos enormes, destinados a armazenar o cereal.

Sete anos de colheitas abundantes produziram quantidades imensas de cereal. Ainda não tinham passado sete anos e já os novos silos se encontravam tão cheios que até José perdeu a conta de quanto cereal se juntara. Então chegaram os anos magros e de fome, durante os quais as searas não produziam nada. José viu-se mais ocupado do que nunca, a vender o cereal e a vigiar para que fosse distribuído com justiça.

Não tardou que chegasse aos ouvidos das gentes dos países vizinhos, onde a fome grassava igualmente, que havia cereal à venda no Egipto. Por isso, muitos habitantes daquelas terras meteram-se a caminho, para ir ter com José e pedir-lhe se também os deixava comprar cereal.

 

                                                                           Fome em canaã

Génesis 42

Longe do Egipto, na terra de Canaã, Jacob e os filhos também passavam fome.

— Ouvi dizer que no Egipto eles têm cereal para vender — disse Jacob aos filhos. — Vão até lá e comprem algum para nós.

Os irmãos partiram todos, excepto Benjamim. Jacob não suportava separar-se dele, pois era o único filho que lhe restava de Raquel, a mulher que ele amara tão ternamente.

Logo que os dez estrangeiros foram conduzidos à presença de José, este reconheceu-os.

Mas os irmãos não faziam a mínima ideia de quem ele era. Nem por sombras esperavam que José estivesse vivo, muito menos que fosse governador de todo o Egipto. Além do mais, ele vestia--se como um egípcio.

— De onde vêm vocês?

 — Perguntou José, secamente.

Falava em língua egípcia e um servo traduzia tudo o que ele dizia.

— De Canaã — responderam.

 — Viemos comprar cereal.

— Não acredito numa única palavra — Declarou José. — Parece-me que vocês são um bando de espiões que vieram ver o que se passa aqui.

— Somos gente de bem

 — Protestaram eles.

— Então expliquem-me exactamente quem são — insistiu José.

— Éramos doze, todos irmãos

— Começaram eles. — Mas um dos irmãos morreu e o mais novo é tão querido ao nosso pai que ele não o deixou vir connosco.

José experimentou uma sensação estranha quando ouviu falar de si próprio como tendo morrido, mas não o deixou perceber.

— Provem que estão inocentes, trazendo o vosso irmão da próxima vez que cá vierem — ordenou. — Eu vou manter um de vocês aqui como refém, até que voltem.

Simeão foi levado e metido na prisão. Os outros foram autorizados a regressar a Canaã, com sacas cheias de cereal.

Quando chegaram a casa e abriram as sacas, ficaram horrorizados ao descobrir as suas próprias bolsas de dinheiro colocadas no cimo, sobre os grãos de cereal. Tinham-lhes devolvido tudo o que tinham pago.

— Agora seremos acusados de ser ladrões, além de espiões

 — Exclamaram.

Ignoravam que fora José que mandara os seus servos pôr ali o dinheiro deles, pois pretendia descobrir se os seus cruéis irmãos se tinham tornado boas pessoas.

 

Nova Viagem ao Egipto

 

Génesis 43

Pouco a pouco a provisão de cereal egípcio esgotou-se e, em breve, Jacob e toda a sua grande família começou outra vez a passar fome.

— Tendes de voltar ao Egipto para comprar mais — Disse Jacob aos filhos.

— Só se deixares que Benjamim vá connosco — insistiram eles.

— Não! Isso nunca! — Gritou Jacob. — José morreu, Simeão está preso e agora querem levar-me Benjamim!

— Seremos todos condenados à morte como espiões se não o levarmos argumentaram os irmãos.

Então Judá, aquele que tantos anos antes haviam sugerido que vendessem José como escravo, tomou a palavra:

— Prometo-te, e pagarei com a minha vida se o não fizer, tomar conta de Benjamim — declarou a Jacob. — Eu ficarei responsável por ele.

Cheio de tristeza e com muita relutância, Jacob acabou por concordar e ficou a vê-los partirem todos para o Egipto.

Com grande alívio, foram recebidos com simpatia e conduzidos a casa de José.

Quando, depois de tanto tempo, José viu Benjamim, o seu irmão germano, só a custo pôde conter as lágrimas de alegria. Ordenou que libertassem Simeão e convidou-os a todos para jantar.

Quando, ainda nervosos, entraram na sala onde estava a mesa preparada, ficaram espantados ao ver que lhes tinham destinado os lugares respeitando exactamente a ordem de idades. Como é que alguém ali sabia isso?

Benjamim foi servido de porções maiores, segundo ordens de José.

Os irmãos sentiam-se cheios de gratidão e aliviados. Parecia que os mal--entendidos tinham terminado. Em breve iriam todos, sãos e salvos, a caminho de casa, com novas provisões de cereais

 

A Taça Desaparecida

 

 

Génesis 44-45

Os irmãos retomaram o caminho de regresso a Canaã, em grupo alegre e descontraído. Tudo acabara bem e Benjamim vinha com eles em segurança.

Porém, quando menos esperavam, avistaram ao longe um cavaleiro que avançava velozmente em direcção a eles. Quando aquele se aproximou, caiu-lhes o coração aos pés. Reconheceram o intendente do governador do Egipto.

        Como se atreveram a roubar a melhor taça de prata do meu amo? — Gritou o recém-chegado, ao aproximar-se deles.

        Não sabemos a que te referes — protestaram. — Não roubámos nada. Se algum de nós tem em seu poder essa taça, podes mandá-lo matar e manter os restantes de nós como escravos.

Com brusquidão, o criado revistou-lhes a bagagem e abriu uma por uma as sacas de cereal. A última que abriu foi a de Benjamim. Ali, faiscando ao sol, encontrava-se a taça preciosa.

Os irmãos ficaram tomados de horror. Voltaram a carregar os jumentos e, em silêncio, deram meia volta e seguiram o intendente de José. Mal sabiam eles que tudo o que estava a acontecer fazia parte do plano de José para averiguar que género de pessoas eles se tinham tornado.

Quando ouviu o relato do criado, José declarou:

        Só o culpado de entre vós passa a ser meu escravo.

Então Judá, corajosamente, deu um passo em frente.

        Se ficares com Benjamim, meu pai morrerá de dor. Peço-te que me aceites a mim em troca.

José mal podia acreditar nos seus ouvidos. Os seus irmãos eram agora bem diferentes do bando cruel que o vendera como escravo e fizera seu pai crer que ele tinha morrido. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos e não foi capaz de continuar a ocultar-lhes a verdade.

        Saiam da sala! — Bradou para os criados.

A seguir falou aos irmãos, pela primeira vez na língua deles.

        Eu sou José — disse-lhes. — O vosso irmão há tanto tempo desaparecido.

 

                                                                                       Reunião de Família

 

Génesis 45-46

Os irmãos ficaram aterrorizados quando finalmente abarcaram toda a verdade. O poderoso governador do Egipto não era outro senão o irmão que tinham tratado tão mal, havia longos anos. Agora ele ia fazê-los pagar caro por isso.

Em vez disso, porém, José pediu-lhes que se aproximassem. Abraçou-os e beijou-os um por um, a começar por Benjamim.

— Não se culpem pelo que fizeram — disse-lhes com simpatia. — Deus tinha um plano quando me trouxe até aqui. Eu tive possibilidade de salvar muitas e muitas vidas. Agora, vocês têm de regressar sem demora e ir buscar o nosso pai e as vossas famílias. Vai haver ainda uns poucos de anos de fome. Eu tratarei de tudo para que vocês se estabeleçam em Gessen, onde existem boas pastagens para os vossos rebanhos.

Então, finalmente, houve risos e conversa e muita alegria.

Os criados, curiosos, tinham ficado à escuta e foram contar o sucedido a toda a gente. As boas notícias chegaram também aos ouvidos do próprio faraó.

Pouco tempo depois, os irmãos partiram para casa.

— José ainda se encontra vivo!

— Gritaram ao chegar junto de Jacob.

Ele é que é o governador de todo o Egipto. O velho Jacob não quis acreditar no que lhe contavam, até que lhe mostraram os presentes maravilhosos que José tinha enviado para ele. Então toda a família enrolou as tendas e embalou os seus pertences. Reuniram o gado miúdo e graúdo e deram início à vagarosa deslocação para o Egipto, a fim de ir estabelecer-se na terra que José ficara a preparar para eles.

 

                                                                         Escravidão

 

Êxodo 1

Jacob e os filhos, com todas as suas famílias, fixaram-se em Gessen, a província do Egipto onde havia as melhores pastagens para os rebanhos. José cuidou de que tivessem tudo o que necessitavam durante os magros anos de fome que Deus tinha anunciado.

Passaram-se muitos anos.

O velho Jacob morreu, bem como José e todos os seus irmãos. Mas o povo de Israel — nome que Deus dera expressamente a Jacob — continuou a viver no Egipto. Nasceram muitos descendentes.

O faraó do Egipto também tinha morrido entretanto. Outros reis sucederam no trono. Estes não sabiam dos grandes feitos de José e odiavam os estrangeiros que viviam no seu país.

        Eles fazem uma multidão muito grande — disse o rei.

        Podem conspirar contra nós, ou aliar-se aos nossos inimigos, se estalar uma guerra. Temos de tomar medidas.

Pensou que, se conseguisse deixá-los fracos e extenuados à custa de trabalhos muito duros, eles decerto não teriam tantos filhos e ao mesmo tempo não lhes restariam forças para constituírem um perigo para os Egípcios.

Se assim pensou, melhor o fez. Obrigou-os a trabalhar como escravos na construção de novas cidades grandiosas que tinha planeado. Eles tinham de puxar enormes blocos de pedra, com um peso desmesurado, até os colocar no seu devido lugar, e também fabricavam milhares e milhares de tijolos.

Mas o povo de Israel continuava a crescer. Quanto mais maus tratos recebia, mais aumentava em número.

— Tenho de usar outros meios — Decidiu o cruel rei, assustado. — Vou proclamar uma nova lei, segundo a qual todos os filhos varões que nascerem no povo de Israel deverão ser lançados ao rio Nilo, para que se afoguem.

Agora, a situação dos Israelitas parecia, de facto, muito negra. Mas Deus não tinha esquecido o Seu povo.